E a Leveza?

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Tudo que foi meu um dia
eu guardo numa trouxa e levo às costas
por me sentir livre.

Vou me jogar no abismo que me assombrava
sem temor, pois nada me prende
e nada do que um dia foi meu já me pertence.

Por isso sou leve: solto na vida
também dos pensamentos, ou dos afetos,
serei com uma gota no mar,
sabendo ser o próprio mar.
E as pedras do abismo aceitam
meus novos corpos dissociados e simples
sem prisões a incomodar.

Deixarei a trouxa na beira do abismo
antes do salto.. . ou a levarei comigo,
pois o que foi meu já não é mais meu
pertence à vida a qual eu sou
caminhará comigo como experiências
que hei de compartilhar.

Tudo que foi meu um dia
deixo na trouxa.Louco ao mundo
serei como criança
no retorno

ao verdadeiro lar.

E O Louco?

Era uma face escura
mas o Sol a tornou esplêndida
e como arco íris sorria em cores
por todos os lados.

Corria leve no campo
e seus cabelos eram crinas ao vento
espalhadas pelo rosto
e pelo seu tronco. Cavalguei a miragem
como ilusão de todos os atos que faço.

Isso noutros tempos.
Agora sou lúcido.

Encaro a minha própria face escura
como face escura que é,
e o sorriso trágico
é um mero riso de um clown decaído.
Afasto a imagem
como quem afasta um copo de água vazio.

Já bebi da água,
já me dessedentei.
Também já me alimentei e
meu olhar busca agora novas planuras.

Nunca mais estarei sozinho.

 
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